Domingo, 21 de Novembro de 2004

O cisma do betão.

Pensar que a cidade não é mais que uma justaposição, mais ou menos ordenada, de ruas, jardins, casas, monumentos, empreendimentos imobiliários, empresas, onde muitas pessoas convivem, moram e exercem a sua actividade, é ter vistas curtas. As cidades são, sempre foram, muito mais. As cidades, por excelência, são espaços de intercâmbio de ideias, são lugares de oportunidades de vida, são lugares de criação e difusão de conhecimentos. São estas características, não as primeiras, que proporcionam aos cidadãos obter e gerar novas competências, despoletar novos talentos e inovar nos saberes.

A grandeza de uma cidade não pode, portanto, ser medida a partir da quantidade de betão armado que nela se injectou, mas sim do que induziu no crescimento de capacidades e talentos nos cidadãos, reflectindo-se essa indução no que eles forem capazes de criar e produzir.


“Assim, a ultrapassagem dos crescentes desafios que envolvem as cidades passa hoje por conceitos e ideias novas de gestão onde, mais importante do que a expansão urbanística conseguida ou a implantação de indústrias, aquilo que realmente interessa apoiar e promover reside nos recursos humanos e nas habilidades e competências que conseguirem reunir e incentivar em favor do desenvolvimento integrado da localidade e da sua região.”(1)

O progresso social e humano exige grande atenção e capacidade de acção aos gestores dos bens públicos, pois “os elementos que tendem a promover a decadência dos territórios e particularmente dos centros urbanos são mais poderosos do que os relacionados com o crescimento. A transição da era fabril para a sociedade do conhecimento está a provocar danos profundos em muitas regiões e localidades que não foram ainda capazes de perceber a natureza, a forma, a dimensão e o sentido da mudança que está a afectar o mundo. Estamos já em plena era da informação, do conhecimento e da criatividade mas a maioria dos governos locais regem-se pelas práticas, regras e conceitos da sociedade fabril.”(1)


Que atenção tem o Chefe autárquico a estes avisos de decadência?

Na minha opinião nenhuma, mas os sinais da decadência estão ai. Repare-se nos problemas que enfrentam, a Cooperativa Agrícola, o Grupo Desportivo, as empresas industriais tradicionais (nos barros), o comércio tradicional, o comércio automóvel (fechou a Fiat em Chaves, entre outros), o ensino superior (brevemente ficará sem enfermagem), o Hospital (não tarda perde obstetrícia), a lavoura (com o pagamento único, e a não regionalização dos apoios, vai perder muito)... e, não falo na autarquia, porque já estou pelas orelhas de arremessos.

1) in Desenvolvimento Económico do Município, Maxman Institute, 1997.
publicado por chaveslivre às 22:08
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